segunda-feira, 8 de março de 2010

REALIDADE POLÍTICA

Nunca, em tanto tempo, o indivíduo foi tão manipulado pelos grandes sistemas de dominação quanto nas últimas décadas. Atualmente, vivemos uma nova realidade social, política e econômica. Realidade estranha, diferente de todos os ideais de organização social, política ou econômica que surgiram ao longo da história. Não se pode mais falar em sociedades comunistas, capitalistas, tribais ou primitivas. Hoje, o que existe, essencialmente, é a chamada Aldeia Global, uma sociedade construída e firmada sobre os ideais da superinformação, em que a verdade desaparece sob o peso de uma série interminável de imagens que já não se fixam em nossas consciências. Vivemos a época da proliferação incontrolável de imagens e discursos, espécie de contaminação absoluta que faz com tudo seja referência esvaziada de sentido. Abrimos jornais e revistas, ligamos o rádio ou a tv, e somos tomados por um excesso de informações que nos perdem os sentidos, nos confundem, enganam, dissimulam e, em larga medida, nos alienam de sua própria condição: a idéia de que toda imagem, de que todo o discurso e toda a informação devem nos remeter a uma determinada essencialidade, ao motivo de sua própria existência.

Não há mais uma verdade disponível, inviolável, que se revele a partir da enorme quantidade de discursos produzidos atualmente. Ao contrário, a verdade, ou a idéia que tínhamos de verdade como algo absoluto, teleológico, desapareceu. Agora, a verdade já não representa um fim em si mesma, mas parte-se em fragmentos, estilhaços cada vez mais indefiníveis, obscuros, alheios a qualquer sentido, atendo às ideologias da hora, coerente com um mundo e uma sociedade que deseja, única e exclusivamente, acreditar no que quer que seja. Numa sociedade determinada pela proliferação desordenada de imagens, pelo esvaziamento dos sentidos e pela fragmentação caótica do ideal de verdade, a informação circula sem que se possa definir, com certeza, sua origem, suas motivações ou sua transparência, e acaba se transformando em objeto dos mais diferentes tipos de manipulação. A verdade, nesse contexto, passa a ser uma forma grotesca de domínio reivindicada pelas mais diferentes ideologias.

Assim, o terrorismo, por exemplo, transforma-se num tipo de ação política contestatória, organizada em nome dos mais estranhos ideais, e promovida por grupos que crêem não em uma suposta verdade primordial – comum a todos os homens em todas as circunstâncias de suas vidas –, mas sim na verdade particular que seus discursos legitimatórios engendram. As invasões, as guerras, os conflitos territoriais e a militarização da ação política como resposta ao terror, ou como contrapartida das forças dominantes, também se justificam através de uma verdade que não pode ser experimentada para além de si mesma. Nesse universo em que as relações de força se dão pela manipulação dos desejos e das vontades coletivas, as informações veiculadas no interior da sociedade contemporânea já não significam a descoberta ou a revelação de uma verdade possível, pois esta permanece encoberta sob camadas e camadas de discursos e imagens postas em circulação numa velocidade assustadora, mas apenas mais um mecanismo de controle, mais uma forma de manipular, confundir ou falsear a realidade caótica em que vivemos.

A realidade, como a entendemos, passa a ser, então, um produto de construção, um simulacro, um lugar absolutamente vazio sempre pronto a ser preenchido pelas verdades e pelas imagens que as forças dominantes, que as grandes ideologias põem em circulação. A realidade é uma simulação que assistimos dia-a-dia, que resiste indefinidamente, que se prolonga no tempo e no espaço, sem que a maioria das pessoas se dê conta de que faz parte de um jogo cego, dissimulado, que manipula o real em favor de seus próprios interesses e que condena as consciências a uma espécie de cegueira total, incapaz de distinguir, entre os discursos e as imagens em permanente estado de reprodução, valores, posturas ou condutas mais ou menos definíveis. Ao contrário do que muitos imaginam, se expor a esse mundo de aparências e simulações geridas pela rede da superinformação não é uma forma de conhecimento ou de saber. Aceitar, passivamente, as verdades fragmentadas instituídas pelos discursos e pelas imagens da contemporaneidade é enganar-se deliberadamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário